Ser criado em família de alta ou baixa renda, viver em residência com ou sem computador, estudar todo o Ensino Médio em escola pública ou privada e ter pais que cursaram ou não uma faculdade são fatores determinantes para a nota de um aluno gaúcho no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Tais características estão relacionadas a 89,9% da nota na avaliação que é a porta de entrada para a universidade brasileira, segundo cálculo estatístico que GaúchaZH realizou, com auxílio de inteligência artificial.

Em todo o país, 3,89 milhões de candidatos fizeram o Enem em 2019. A reportagem compilou os dados estatísticos de todas essas pessoas. No Rio Grande do Sul, o número de candidatos que realizaram o exame foi de 167,4 mil. Nesses, GaúchaZH aplicou o modelo matemático que permitiu constatar o peso das características sociais e culturais em cada nota — e chegar à porcentagem descrita no parágrafo anterior (leia sobre a metodologia de análise ao fim deste texto). Os dados foram fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC).

A análise identificou os cinco fatores que mais influenciam a nota do aluno, para o bem ou para o mal:

  • Renda mensal da família;
    Ter computador em casa;
    Estudar Ensino Médio só em escola privada;
    Ter pai que ao menos começou faculdade;
    Estudar Ensino Médio só em escola pública.
  • A pobreza se mostra um obstáculo para assegurar o direito à educação, artigo básico na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 1948. As vantagens de quem tem dinheiro podem ser resumidas em dois tipos: o acesso a bens (ter renda alta poupa o jovem de esforço além do estudo) e a bagagem cultural (quem é mais rico é incentivado a ler, frequentar o cinema, viajar e valorizar o estudo). Quando chega à escola, o jovem de classe média ou alta está bem à frente de quem nunca abriu um livro e já trabalha para sustentar a família.

    — Nem sempre quem se esforçou mais teve melhores resultados. Os dados indicam que as condições que se apresentam ao aluno importam. E que o Enem leva em conta essas condições, e não só a nota do aluno — diz Ocimar Alavarse, professor de avaliação educacional na Universidade de São Paulo (USP). — Se o estudante tem condições materiais e não precisa trabalhar, lavar roupa ou fazer comida, por exemplo, tende a se dar melhor.

    E não só isso: uma criança que nasce em família de pais com pós-graduação aprende a dar mais valor à educação escolar. Analisando os dados dos candidatos gaúchos, é possível concluir que, quanto maior a renda familiar, o nível de estudo dos pais e o número de computadores em casa, maior é a média do aluno.

    No Enem, a nota mínima é zero e a máxima, mil. O aluno que vem de uma família que não tem renda (ou tem ganhos inferiores a R$ 954, o salário mínimo em 2018, por mês) tem média de 482,5 no Brasil, mostra o modelo matemático. Se a família ganha mais de R$ 19 mil, o resultado final sobe para 648,2. Caso o aluno tenha cursado todo o Ensino Médio em escola privada, a média fica em 620,4. Agora, se só teve aulas em escola pública, cai para 528.

    Especialistas destacam que o nível socioeconômico de um jovem não definirá seu destino a ferro e fogo — o esforço individual pode dar resultado. Entretanto, afirmam que a pobreza impõe obstáculos cotidianos que impedem a competição em pé de igualdade entre jovens ricos e pobres.

    — O esforço individual importa, sim. Mas o estudante traz a desigualdade para dentro da escola – pontua Carlos Roberto Cury, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso e a Ciência (SBPC). — Sem biblioteca, laboratório com internet e bons professores, é difícil consertar esse atraso. As famílias mais abastadas têm ambientes com um quarto para o filho. Em um bairro vulnerável, a mesa do café, da televisão e do liquidificador é a mesa do estudo. Essas condições influenciam.

    É o que ocorre com Thayná Duarte, 19 anos, cuja mesa de estudos é também a do café, do almoço e do jantar da família: sala e cozinha são conjugadas no apartamento onde mora na Lomba do Pinheiro, bairro periférico de Porto Alegre, com a mãe, doceira, e dois irmãos, de oito e 10 anos. A rotina no último ano do Ensino Médio, em 2018, era corrida: acordava às 6h para estagiar pela manhã no Centro Histórico, de onde tirava R$ 500, valor que pagava a internet da casa. À tarde, estudava em uma escola estadual e, à noite, em um pré-vestibular popular gratuito. Voltava para casa só às 23h30min, exausta.

    — Eu estudava no ônibus, a caminho do trabalho. Em casa, ficava esgotada. Achei que não ia passar porque não tinha tempo para estudar o suficiente — afirma.

    Mas o esforço foi recompensado em janeiro, quando entrou na Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Escolheu o curso diurno, porque o noturno terminaria muito tarde, o que seria perigoso para voltar para casa usando transporte público. A partir do início das aulas, a jovem começou a se comparar com os colegas que, diferentemente dela, não são cotistas. A diferença de realidades causava uma sensação difícil de descrever.

    — Nos primeiros meses, foi um pouco estranho. Eu pensava que não era boa o bastante para estar ali. Meus colegas sabiam quem era Freud ou Lacan. Eu, não. Nem sou tão tímida, mas ali fico intimidada. Sinto que não vi tudo o que eu deveria ter visto, mas sigo estudando bastante — reflete a aluna.

    Fonte: GauchaZH

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